240719 – O QUE EU FAÇO DO LATIM (QUANDO SUMIU DA ESCOLA)?



(Arte Digital: Marco Agÿar)

            No Grego antigo temos a palavra «λαός» (laós, “o comum, o povo”), desta «λαϊκός» (laïkós“do povo”) e chegamos ao latim «lāicus» (“leigo; não consagrado, não santificado”). A partir do século XII surge o termo francês «laïque» com o significado de não pertencer ao clero. No século XIV como “não educado, não doutrinado, não profissional e não clerical”. Nesse caso já existe a variação no galego-português «leigo». Então surge o movimento de Estado Secular ou Estado Laico. As ideias de um Estado Laico surgem na Revolução Francesa onde a Igreja deveria se separar do Estado no que tange política e governo. Laico não significa que seja ateu (não crê em Deus) ou agnóstico (negar ou ignorar conceitos religiosos), embora aceite estes e outras religiões, seitas ou manifestações filosóficas. 

 

            Logicamente a ideia de não interferência da Igreja se fez presente na República Brasileira, mas também serviu o Estado Laico como um dos pretextos para eliminar dos currículos escolares o aprendizado da Latim enquanto língua. E podemos ver que não era somente no Brasil, mas também em outras partes do mundo. Já nos anos 1960 já era contestado e o estopim disso começa com o Concílio Vaticano II entre 1962 e 1965. O fato de ritos (liturgia, missas, etc.) serem realizados em Língua Vernacular, ou seja, o idioma do país e não mais ou tão somente o Latim. Porém isso já era reclamado durante a Reforma Protestanteno século XVI. Então o idioma passaria a ficar sendo posto de lado. Inclusive os Papas mais recentes acabam dominando diversos idiomas. 

 

            Na Itália, em 1963, o cantor Gianni Morandi (80 anos) fazia sucesso com a música «Che Me Ne Faccio Del Latino» com letra de Marcello Marchesi (1912-1978) e Luciano Beretta (1928-1994), música de Mario Bertolazzi (1918-1986). A música enaltecia algumas disciplinas e questionava para que servia o aprendizado do latim. No ano seguinte, a verão brasileira foi traduzida pelo professor de violão e pesquisador Theotonio Pavão (1915-1988) e interpretada pela filha, anovata Meire Pavão, nome artístico de Antônia Maria Pavão (1948-2008) foi uma das cantoras do movimento jovem do Rock brasileiro, que por conta de um programa de TV se chamaria «Jovem Guarda». Seu primeiro sucesso foi uma música curiosa, «O Que Eu Faço do Latim» em 1964, com a versão de seu pai.

 

            Porém essas foram desculpas para tirar o latim por outro motivo oculto. Ele permitia racionalizar o aprendizado da Língua Portuguesa e sua lógica ainda permitia um poderoso conhecimento gramatical sobre o aprendizado de outras línguas neolatinas e o inglês (que tem 29% derivado direto do latim e 29% do francês (58%), 26% germânico e 16% de outras). O latim oficialmente seria extinto na Educação Básica do Brasil em 20 de dezembro de 1961, pela Lei de Diretrizes e Bases nº 4024 (LDB), ficando apenas restrita aos cursos de Letras nas universidades e faculdades. E isso continuaria nas LDB 5692/71 e a atual LDB 9394/96. E ainda sabotam o que resta da Língua Portuguesa, mas isso é outro assunto. Apesar dos protestos, a disciplina de Latim foi cruelmente retirada do ensino ginasial (atual segundo segmento do Ensino Fundamental) por conta de um acordo entre o Ministério da Educação do Brasil e a United States Agency for International Development (Usaid), dos Estados Unidos, tirou do currículo matérias consideradas obsoletas.

 

            Alguns professores marcaram o ensino da Língua na Educação Básica e hoje posso citar como excelentes mestres os quais seus livros podem ser adquiridos em sebos (lojas de livros usados) e em algumas editoras resilientes. Gostaria de citar todos, mas vou destacar dois que conheço. O paulista Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998) e o carioca Carlos Juliano Torres Pastorino (1910 - 1980). Napoleão era gramático, filólogo e professor brasileiro de português e latim. Nascido na pequena Itaí, no estado de São Paulo, estudou no Instituto Salesiano de Pedagogia e Filosofia de Lavrinhas e a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (hoje USP). Em 1938 ensinava português e latim por correspondência e entre 1936 a 1944 (e desde 1990 a 98) foi colunista, desde os 25 anos de idade, do jornal O Estado de S. Paulo (Estadão). A coluna se chamava «Questões Vernáculas» o que permitiu criar um dicionário sobre seu tema. 

 

            Sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa chegou a mais de meio milhão de exemplares vendidos em pouco mais de quarenta edições. Em colaboração do professor Paulo Hernandes, publicou sua 46.ª edição com as modificações introduzidas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Seu Dicionário de Questões Vernáculas chegou às dezenas de milhares de cópias. Ambos ainda estão em catálogo e são notáveis pelas minúcias das questões, com exposição de posições contra e a favor. Seu perfil purista em matéria de normas gramaticais e ortográficas, Napoleão foi um importante e influente gramático e filólogo da língua portuguesa no século XX. Entre suas obras destaque para a “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, “Gramática Latina”, “Dicionário de Questões Vernáculas”, “Curso de Português por Correspondência”, “Curso de Latim por Correspondência”e “Antologia Remissiva

 

Acervo disponível de Napoleão Mendes de Almeida


https://archive.org/details/texts?tab=collection&query=Napole%C3%A3o+Mendes+de+Almeida

 

            Carlos Juliano Torres Pastorino foi um ex-padre, radialista e escritor brasileiro. Ele é muito conhecido pelo maior «best-seller» de auto-ajuda brasileiro, o pequeno «Minutos de Sabedoria». Dedicado ao estudo da Doutrina Espírita e mediunidade também foi um dos mais proeminentes autores de livros didáticos de latim. Egresso do Colégio Pedro II, na então capital federal, Rio de Janeiro em 1924. Neste colégio recebeu os diplomas de Geografia, Corografia, Cosmografia e pouco depois, de bacharel em Português. Teve mais tarde cinco filhos, em dois casamentos. Sua formação como sacerdote permitiu cursar o Seminário em Roma, diplomado em 1929 e ordenado padre em 1934. Há uma controversa história de que teria o então Papa Pio XI (1857-1939) recusado receber Mahatma Ghandi (1869-1948) e ele largou a batina.

 

            Voltou ao Brasil, lecionando Latim e Grego no Instituto Ítalo-Brasileiro de Alta Cultura, além de ter também lecionado espanhol. Como Napoleão ele atuou em jornais dos Diários Associados como correspondente e adido cultural-jornalístico da Academia Brasileira de Belas Artes, foi um dos divulgadores da língua mundial ««Esperanto» sendo delegado especial da Universala Esperanto Asociocom sede nos Países Baixos. Fundou a Sociedade Brasileira de Esperanto, no Rio de Janeiro. Era catedrático nos principais colégios da capital como o Colégio Militar e o Pedro II. Sua obra consta :  “Latim para os alunos” (Séries: 1ª, 2ª e Complementar),  Chave da Versão Latina.

 

Acervo disponível de de Carlos Pastorino


https://archive.org/details/texts?tab=collection&query=carlos+Pastorino

 

 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

240626 - A ORDEM DOS CONSTITUINTES E CURIOSIDADES DOS IDIOMAS

240620 – BRASIL OU BRAZIL? ENTENDA EXÔNIMOS E ENDÔNIMOS.

240709 – DICIONÁRIO É O «PAI DOS ESPERTOS» E NÃO «DOS BURROS».