240709 – DICIONÁRIO É O «PAI DOS ESPERTOS» E NÃO «DOS BURROS».

 


 

            Há uma denominação curiosa sobre o dicionário ser alcunhado de «Pai dos Burros» quando deveria ser chamado «Pai dos Espertos» porque burro é quem não consulta o dicionário e expõe a falta de conhecimento da língua. O primeiro dicionário pode ter surgido na Mesopotâmia por volta de 2.600 a.C. Os gregos já tinham os seus «lexicons» e assim ao longo da História foram surgindo dicionários de uma mesma língua ou utilizados para tradução. Por exemplo o « Vocabvlario da Lingoa de Iapam ou Vocabulário da Língua do Japão» (日葡辞書 Nippo Jisho) de 1603, é um dicionário de japonês-português, o primeiro a traduzir o japonês para uma língua ocidental. Este dicionário foi organizado pelo missionário e linguista jesuíta português João Rodrigues «Tsuzu» (1558-1634) natural de Sernancelhe (terra do meu pai). Também escreveu gramática japonesa e outros livros. O primeiro dicionário de língua portuguesa foi o «Vocabulário Portuguez Y Latino», de autoria do padre Raphael Bluteau (1638-1734), que nasceu em Londres e mudou-se para Portugal em 1668. Link: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/2252

 

            Como sempre faço vamos conhecer as palavras. Aliás as palavras podem estar presentes em dicionários (compilação completa ou parcial de unidades léxicas como palavras, afixos, locuções, etc. (de forma organizada em uma ordem convencional como a alfabética, etc.). Podem estar em léxicos (repertório de palavras existentes numa determinada língua ou linguagem). Em um glossário (conjunto de termos de uma área de conhecimento ou referente a um dado capítulo de livros por exemplo) e o vocabulário (conjunto de termos que são característicos de determinado campo de conhecimento ou atividade). «Dicionário» do latim medieval «dictiōnārium» , do latim «dictiōnārius» , de «dictiō»  ( “ falar ” ) e  «-ārium» ( “lugar ” ). «Léxico» do grego antigo «λεξικόν» ( lexikón ) . De «λεξικὸν βιβλίον» ( lexikòn biblíon , literalmente “ um livro de ou pertencente a palavras ” ) de «λέξις» ( léxis , “ um ditado, discurso, palavra ” ) . «Glossário» do latim «glōssārium» ( “ glossário ” ) , do grego antigo «γλῶσσα»  ( glôssa , “ língua ” ) e «vocabulário» do latim tardio «vocābulārium». De «vocābulum» ( “ designaçãonome ” ) e  «-ārium»  ( “ lugar” ) . 

 

            Nos anos 1980 e 1990 eu tinha uma coleção incrível de dicionários de idiomas. Calculo mais de vinte idiomas diferentes. Sem contar uma coleção da Larousse, que trazia a origem das palavras. Como o tempo fui perdendo-os com diversas situações que iam desde goteiras até furtos. Em 1992 tive o prazer memorável de ter aula com um grande professor na UFRJAgostinho Dias Carneiro, que acabei sendo colega dele, em um colégio do Leblon, no Rio de Janeiro. Em sua aula na Faculdade de Educação, ele sugeriu que sempre tivéssemos um dicionário de Língua Portuguesa o mais atualizado possível e que também tivéssemos junto um dicionário o mais antigo possível. Isso se deve a uma coisa curiosa, como uma palavra se modifica com o tempo e passa a ter além de uma grafia diferente também um outro significado. Isso explica a temporalidade das palavras. 

 

            Uma das coisas que venho observado são os meios eletrônicos de comunicação que ERRAM feito na ortografia das palavras (fora a questão gramática, que comentarei em breve). No começo era apenas no sentido jocoso, humorístico e cômico como podemos ouvir no programa de rádio das décadas de 1940-60 «PRK-30» onde os humoristas Joaquim Silvério Castro Barbosa (1909-1975) e de Laurentino (Lauro) Borges (1901-1967) abusavam de falar errado propositalmente incluindo imitações de sotaques nacionais e internacionais. O problema é que as pessoas repetiam estas palavras e isso se consolida com a televisão. Os «bordões» ou frases de efeito escondiam a grafia correta. Um exemplo é o programa «Os Trapalhões» cuja grafia correta deveria ser «Os Atrapalhões» (do verbo atrapalhar). Repetindo: «Pai dos Burros» quando deveria ser chamado «Pai dos Espertos» porque burro é quem não consulta o dicionário e expõe a falta de conhecimento da língua.

 

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